pC interview arq./a

Entrevista a Inês Moreira por Sandra Vieira Jurgens

in revista arq./a number 59/60 [portuguese only]

Inês Moreira (Porto, 1977) é arquitecta (FAUP, Porto, 2001) e mestre em Teoria da Arquitectura e Cultura Urbana (UPC, Barcelona, 2003). Tem desenvolvido produções de projectos culturais, comissariados, montagens de exposições, edição e investigação em contextos institucionais e independentes.


Para começar, gostaria que traçasse uma pequena biografia sua, que nos falasse da sua formação em arquitectura na Universidade do Porto e do mestrado em Barcelona.

O meu percurso profissional é híbrido e pisa diversos territórios, disciplinas e histórias pessoais. Gosto da frase que a Donna Haraway usa “the story that I was born into”, ampliando-a num mapa de conexões, de opções não-lineares e de algumas oportunidades inesperadas. Sempre senti um grande interesse pela criação artística contemporânea e pelos reflexos culturais da arquitectura, viajei muito com a minha família pelas cidades da Europa e Estados Unidos. A minha inquietação voltou-se para os eventos, a actividade e as instituições culturais, os museus e a complexidade da vida urbana das grandes cidades.

A minha formação académica é a narrativa mais linear desta história. Estudei na Faculdade do Porto no contexto da chamada “Escola do Porto”. Nos anos 90 a escola propunha ainda uma experiência disciplinar de atelier moderno, turmas pequenas projectavam numa relação próxima com um professor, a referência dos grandes heróis da arquitectura e da sua Obra era dominante: os nacionais (Siza, Távora, Souto de Moura) e os Modernos (Alvar Aalto, Mies van der Rohe, Le Corbusier); o paradigma formava para o gesto autoral, a afirmação do autor e da obra individual, a técnica e a prática autoral do projecto em escritório… no meu caso ainda não veio a acontecer…

Foi na Escola de Arquitectura de Barcelona, no programa Erasmus, que pude desenvolver ligações interdisciplinares da arquitectura, através da investigação teórica, e que tive contacto com o pensamento contemporâneo e com a reflexão crítica. Barcelona oferece acesso intensivo a uma grande diversidade de programação, exposições e conferências que podem complementar as aulas teóricas. Prossegui no mestrado em teoria da Arquitectura e Cultura Urbana, Metropolis, curso multidisciplinar e internacional, numa tentativa de articular a grande profusão de informação que recebera, e o acesso a outras disciplinas (sociologia, geografia urbana, artes visuais). Aí compreendi os terrenos instáveis da investigação interdisciplinar e também a indeterminação, a flexibilidade e a fragilidade implicados na investigação e na especulação sobre o contemporâneo. Foi uma forte experiência de urbanidade e de abertura do meu campo de operações. A multiplicidade e a sinergia entre instituições académicas e culturais formou o meu interesse pela programação cultural e pela pesquisa nas áreas da cultura.

E porque este é um número dedicado a Le Corbusier, queria saber que lugar concede aquele que é considerado o arquitecto mais importante do século XX. Tem dedicado atenção ao Cabanon de Le Corbusier, a cabana de madeira que construiu na costa de Cap-Martin para residência de férias. Fale-me um pouco da concepção, do contexto e da existência do Cabanon.

Le Corbusier é um Mestre incontestável da Arquitectura. O seu lugar é indiscutível: é um dos grandes heróis da História da Arquitectura Moderna e da Ocidentalização do Mundo. A sua obra é extensa e multifacetada: projectos, edifícios, urbanismo, publicações, pintura, desenho, design. Há um grande corpo de conhecimento produzido por LC, que se ampliou ao longo de décadas como referência/citação arquitectónica e pelo trabalho de investigadores que estudam a obra, biografia e as influências noutros autores. Corbu é incontornável.

Vejo no Cabanon uma fresta no seu corpo de trabalho onde o mito do criador e o acto demiúrgico da criação são humanizados pela performatividade e improviso do próprio autor. O Cabanon é uma simples cabana de madeira para estância de férias que LC construiu na costa de Cap-Martin, por volta de 1951/52. A cabana situa-se à sombra de uma grande árvore, num terreno estreito ao longo da baía e está justaposta a um restaurante modesto, nas traseiras da famosa Villa E.1027 de Eileen Gray. É definido por troncos de madeira, com meia dúzia de aberturas e cobertura inclinada de chapa ondulada, no seu interior em open-space cria um existenz mininum com menos de 15m2 modulado segundo a métrica publicada no Modulor. O seu exterior tem uma vegetação densa e uma vista deslumbrante sobre a paisagem e o mediterrâneo. O espaço interior projecta-se no exterior, sem recurso à construção, pela prática informal de variadas actividades.

Aparenta ser uma construção anónima, ou um acto de contenção de recursos, mas foi construído no momento áureo do segundo pós-guerra, no início da reconstrução e desenvolvimento da França, numa fase de encomenda pública volumosa e de projectos de grande escala. Era o momento de afirmação definitiva da sua carreira de Mestre Modernista: terminava a “Unité de Habitación” de Marselha e iniciava a igreja de Ronchamp, apresentava os famosos desenhos “La Main Ouverte”, iniciava os planos de Chandigarh, publicava a obra “Modulor I” e expunha no MOMA de Nova Iorque. Para si escolheu este pequeno abrigo.

Qual a importância desta micro-história na História e no legado de Le Corbusier?

O Cabanon é referido como obra lateral na história da Arquitectura. É considerado secundário, o protótipo para a experiência do Modulor, que seria aplicado nas obras principais. Não pretendo declarar a sua importância no modernismo, reinscrever a sua centralidade, ou resgatar a obra para uma narrativa Histórica. O argumento não é rever ou reescrever a História.

Interessa-me compreender a micro-política daquele projecto (ideia, desenho, construção) e a micro-política das suas práticas espaciais (a convergência, as intensidades, a atmosfera) para enunciar a potencialidade das relações entre a Obra, o criador, as ambições, a convivência, a proporção, a escala, o improviso, intensificados por 12m2. O próprio nome “cabaninha” e as suas traduções – “choupana”, “choça”, “cabana” – minimizam-no e, através do vocabulário, remetem-no para terreno vernacular. O que é muito interessante!

Porque se interessou por esta que é considerada uma obra «menor» na história da arquitectura?

Interessam-me dois aspectos particulares: a qualidade processual da sua prática e o valor enunciativo, mas não representacional, implícito na obra menor.

Primeiro, o Cabanon define-se numa prática banal do espaço; LC enuncia a teoria moderna e ilustrada da Arquitectura, mas habita-a com um comportamento adisciplinar e bastante anónimo, introduzindo no seio da Arquitectura moderna práticas de ocupação não-tipificada do espaço, baseadas na fragilidade dos usos e práticas quotidianas espontâneas, desorganizando a funcionalização da casa como machine à habiter. Reorganiza as funções e actividades através do improviso, estas estendem-se pelo jardim e pela barraca posteriormente aposta; é ainda um inventivo sistema de compropriedade de terrenos que resulta na privatização pela troca de serviços. Esta arquitectura é imaterial e fluida, baseada nos gestos, no uso, no improviso, produzindo um espaço de contradição com a Obra arquitectónica Moderna (descorporalizando o próprio LC).

Em segundo lugar, vejo nesta obra secundária de LC uma figuração condensada por diversos aspectos contraditórios da obra heróica e da sua vida. Aparentemente anedótica, fútil, secundária, a cabana permite um escape auto-crítico do super-herói Moderno, através da ocupação de uma pequena caixa ressonante.

Vejo enunciado no Cabanon um devir-menor da sua obra, no sentido que Deleuze e Guattari expuseram a propósito da literatura de Kafka. Involuntariamente, o Cabanon provoca uma desterritorialização da língua dominante: utilizando a linguagem erudita (o Modulor e a arquitectura moderna); LC performa-a, condensa-a e desenvolve um projecto não representacional mas, antes, performável. O cabanon é o “protótipo do modulor”, uma ferramenta de racionalização da arquitectura, pelo que participa tangencialmente na inscrição na língua Moderna e na História da arquitectura. Mas também tangencialmente tem o potencial enunciativo de um outro colectivo, menor. Silenciosamente manifesta a cabanização popular da costa francesa pela pequena burguesia, que ocorreu contemporaneamente, sem arquitectura, ou linguagem reconhecível, ou especial protagonismo, mas organizada pelas práticas banais da autoconstrução, do avanço sobre o terreno, da ligação com o exterior, no plano vernacular.

No seu devir menor enuncia a urgência em construir, ocupar e habitar informalmente os espaços verdes e naturais, como fuga da asfixia da cidade moderna da qual ele também era autor. É uma micro-política: converge um desejo de espaço e uma prática constitutiva de espaço.

A existência da Cabana alterou a forma como olha para o legado de Le Corbusier, tornou o homem mais interessante do que o ícone?

Aí morreu LC, numa morte talvez encenada… Esta obra “menor” desconcerta o mito do herói moderno, densifica-o e complexifica-o. Ler o cabanon enquanto obra-menor revela-se muito produtivo, ele desmonta-remonta o autor e a obra através da sua vida: enuncia fragilidades da masculinidade do homem moderno, seja na sua complexa relação com a feminilidade lésbica da vizinha Eileen Gray, como nos conta Beatriz Colomina, ou na obsessão pela mulher exótica dos murais colonialistas que aí produz, como conta Malcolm Miles; enuncia a dominância da pressão construtiva do mundo Moderno, do qual escapa e se recolhe como um nobre selvagem, fugindo da afirmação e da encomenda do seu escritório. É um espaço privado, quase unipessoal, ainda que o tenha oferecido à sua mulher. Mito, obra e vida cruzam-se em reflexividade.

Interessante é que não define tanto o Cabanon de Le Corbusier pelo seu espaço físico mas pelo que acontece nesse lugar, pela vivência desse espaço dedicado às relações pessoais, às actividades ociosas e aos encontros com amigos que aí tinham lugar… E a certa altura afirma no seu texto: «O cabanon faz-nos pensar sobre os frágeis conceitos de espontaneidade e improviso em arquitectura e sobre a potencialidade da prática de um espaço de encontro informal.»

Formula bem, há no Cabanon uma faceta que me suscita questões que se prendem com a importância da acção, do improviso e impossibilidade de total presciência através de um projecto, como nos processos da autoconstrução, e ainda da manualidade, da perfomatividade do espaço, da espontaneidade do uso, a flexibilidade da propriedade, a emotividade da escolha, a complexa subjectividade do lugar… Estas questões não necessitam ser esclarecidas objectivamente como respostas, pela verdade forense da actividade desempenhada. São as mesmas perguntas que se colocam hoje algumas práticas espaciais críticas, mais radicais, mas que já em 1951 encontravam actualizações naquela pequena cabana.

Continua a existir o enigma Cabanon de Le Corbusier? No seu texto dizia: «O cabanon perdura em Cap-Martin e continua a inquietar»…

É simpático que o enigma exista, como uma espécie de alegoria da ruína. Nem tudo poderia ser esclarecido, provavelmente não existem elementos para tal. O inverso, o enigma Le Corbusier no Cabanon, como o virtuosismo técnico da réplica do interior que Cassina reproduziu em 2006, penso que apenas contribui para reforçar e “musealizar” o mito e o herói… o que penso já não ser necessário… Atentemos antes nas modalidades de prática espacial enunciadas no Cabanon.

Neste contexto, como definiria o seu projecto Petit Cabanon, um espaço independente que criou na Rua Miguel Bombarda, dedicado à arquitectura e à cultura visual? Qual foi a sua intenção inicial, quais as suas principais características e o que é que faz acontecer no Petit Cabanon?

O petit Cabanon é um espaço de encontro e de discussão de ideias e conceitos em volta da arquitectura e da cultura visual. Nesse sentido é também um espaço “menor”, que enuncia ideias usando uma linguagem dominante, da academia, da arquitectura, da cultura visual, mas procurando uma postura própria… um vocabulário crítico e uma reflexão propositiva. Interessa-me a ideia de criticalidade, uma critica empenhada na prática.

Tenho organizado conversas informais (Conversation pieces), estou a iniciar os petit THINK TANKS que são momentos de reflexão e debate em grupo, em volta de um tema. Em Julho falaremos sobre “o que aconteceu ao autor heróico? E então, o que podemos fazer?” Também tenho alojado projectos artísticos e arquitectónicos que um local onde reunir, se encontrar e expor. Tenho também o blog: www.petitcabanon.blogspot.com

Um dos traços definidores do seu percurso profissional tem sido a constante abertura a outras áreas disciplinares e a interacção entre a arquitectura e as artes plásticas. Quais têm sido os seus maiores interesses?

Inquietação e pura necessidade: assim tem surgido a tal diversidade de ligações disciplinares. Acredito numa forma de conhecimento e de prática situado, implicado, comprometido com o contemporâneo, com o mundano, com as perguntas, e a procura de respostas. É aí que entram as várias disciplinas, na procura de respostas, na enunciação dos processos de investigação, e na consciência das dificuldades da concretização, da produção.

A descoberta de terrenos híbridos, experimentais e de difícil classificação entre a arte e a arquitectura conduziram-me a colaborações: enquanto criadora de espaços expositivos como Urbanlab (2001), Terminal (2005) ou Depósito (2007); na reflexão e formulação de projectos culturais, como o Projecto xxS (2007); na colaboração pontual com artigos para revistas especializadas; na investigação sobre questões espaciais relacionadas com conceptualização e a espacialização das artes, como o petit Cabanon; ou os projectos da Plano 21, associação cultural.

Noutro nível, menos autoral, estas colaborações aconteceram no Laboratório de Arte Experimental do ex-Instituto das Artes (Ministério da Cultura) que coordenei durante dois anos, e onde o confronto entre o entusiasmo das ideias e as dificuldades de formatação legal e implementação política no terreno foi muito complexo… resultou uma forte experiência do panorama cultural nacional! Também a colaboração com os Museus Universitários da Universidade do Porto foi complexa e apaixonante.

Está a desenvolver o seu doutoramento em Curatorial/Knowledge no Goldsmiths College, na Universidade de Londres. Quais são os temas que lhe interessam investigar?

Todas estas questões, referências e projectos estão formulados no processo da minha Tese de doutoramento, intitulada “Building sites: critical spatial practices and the curatorial”.

Opero uma modalidade de conhecimento que integra a teoria, a prática, o profissional, o académico, o disciplinar, um certo grau de empirismo, pensamento, intuição, e a contaminação temporal pelo profundamente mundano. Simpatizo com a ideia de operar várias áreas de investigação (distinguindo-as de uma área de conhecimento assente nas fronteiras disciplinares) que incluem a cultura visual, a arquitectura e a arte, a sociologia, a filosofia, a teoria da cultura.

Sinto grande afecto pelos modos de conhecimento proto-iluminista, pré-taxonómico e proto-disciplinar, que vieram a conduzir à formulação de disciplinas e à especialização. Há um engenho e inventividade nestes modelos epistemológicos que reside na indissociação do objecto, do investigador e da modalidade de investigação, uma metodologia das conexões extradisciplinares como tecnologia de pensamento.

Posso sintetizar com uma cadeia de ligações as áreas de investigação e de interesse em que me tenho envolvido: o corpo contemporâneo em arquitectura> as próteses tecnológicas e a arquitectura> as biotecnologias, a experimentação laboratorial em arquitectura> os processos da experimentação tecnocientífica em arte e arquitectura> a exposição dos processos de experimentação> a exposição, a arte e a arquitectura> os espaços de exposição> as práticas processuais de concepção, produção e exposição> as praticas relacionais, a habitabilidade e o mundano da exposição e da instituição.