Nota: Este texto foi redigido no momento de desmontagem do espaço físico do petit CABANON como resposta ao convite para publicar no nº 0 da Revista Antípodas, publicação que pretendia ser um local de reflexão crítica sobre a produção artística e cultural. Esta carta é uma resposta ao tema lançado: “Entre o Local e o Global é o Local que está em falha – directivas para a construção de uma comunidade”. Embora a publicação tenha sido cancelada, e o tema não coincidisse exactamente com as problemáticas do pC, o presente texto foi uma oportunidade de reflexão que levou a uma síntese as actividades desenvolvidas.

Retrato de Inês Moreira em visita à réplica do Cabanon de Le Corbusier, montado no átrio do RIBA, em Londres em Março 09.
foto: Paulo Moreira
12 Maio 09
Assunto: petit CABANON e a experimentação de modalidades curatoriais
Cara Revista Antípodas,
A nossa troca de correspondência sobre o petit CABANON surge num período de transição em que, após as diversas experiências e a investigação que desenvolvi, estou a encontrar um novo formato para este projecto. É, por isso, interessante ser questionada sobre a relação Local/Global, pois no momento em que o projecto de pesquisa que desenvolvo no Goldsmiths College se clarifica, e o meu envolvimento em projectos curatoriais se começa disseminar por diversos países da Europa, a dificuldade de filiação, muitas vezes de partilha de referências, e também a impossibilidade de permanência, estadia e manutenção de um local físico, conduzem à reconceptualização daquilo que pode ser hoje, para mim, o petit CABANON.
Responder às questões colocadas sobre a minha experiência concreta com o projecto petit CABANON é um exercício que necessita uma introdução a algumas histórias das quais o CABANON nasceu e histórias que o CABANON agenciou e produziu. O petit CABANON é um projecto situado, num momento da minha investigação, num conjunto de preocupações e num local. Não é um espaço de exposição, é um formato curatorial experimental. Esta distinção convidaria a introduzir o modo como o petit CABANON, contribuiu para a minha conceptualização de modalidades expositivas/discursivas e para a experimentação de alguns termos no meu próprio vocabulário operativo. O petit CABANON é, por isso, uma experiência praticamente inversa a um corpo de trabalho: é um processo, está inacabado, foi sofrendo torções e tem uma comunicação fragmentária. Não resultou em exposições, expôs antes dúvidas e preocupações que a experiência de trabalho em projectos de grande dimensão e em diferentes instituições me tinham pousado.
Apenas após este início, aparentemente divergente relativamente às várias questões colocadas, poderei regressar a algumas das questões que vejo alinhadas para este nº 0: “Entre o Local e o Global é o Local que está em falta?”, “Qual a recepção do público?”
Começando, brevemente e agora pelo princípio: o petit CABANON é um projecto espacial que ensaia intersecções entre a teoria e a prática da arquitectura, da arte e da cultura contemporânea. Foi iniciado como um espaço de encontro e uma modalidade de experimentação do espaço. É um projecto independente, não ilustra um pressuposto e propõe uma entrada oblíqua nos interstícios de diversas áreas artísticas. www.petitcabanon.blogspot.com
O pC veio colmatar uma necessidade que eu sentia relativamente às localizações em que me encontrava: entre a teoria e a prática, entre a arquitectura e a arte, entre o Porto e Londres, entre o público e o privado. Coincidiu com o final do meu 1º semestre de Doutoramento em Curatorial/Knowledge, no Goldsmiths College, e veio aproveitar a oportunidade de cedência de um espaço numa pequena loja no CCBombarda, na Rua de Miguel Bombarda no Porto. Teve origem na minha fascinação pela casa com o mesmo nome que Le Corbusier teve no sul de França: uma cabana de madeira, de ocupação temporária e num terreno com uso em co-propriedade, um pequeno local onde um grande modernista praticou informalmente os prazeres do improviso, diversas histórias importantes e, muitas outras menores ali ocorreram, sendo uma obra secundária na história da Arquitectura. (ver Inês Moreira www.dafne.com.pt/pdf_upload/opusculo_7.pdf)
Este parecia-me um excelente ponto onde iniciar um projecto curatorial sobre arquitectura e arte. Procurava um espaço de encontro e acolhimento de projectos e pessoas interessadas numa abordagem teórica da Arquitectura e da Arte, interessava-me transpor os limites da reflexão académica e cruzar com os campos da prática. Procurava uma espécie de pequeno think tank local, e assim, um momento de entusiasmo pessoal levou-me a criar em Maio de 2007 o pC. Imaginei-o como um espaço hospedeiro de conversas, discussões e de pequenas exposições. Sabia que teria pouca disponibilidade de tempo e nenhuns recursos disponíveis. Mas intermitentemente, durante ano e meio acolhi, programei e produzi formatos distintos, que denominei “conversation pieces”, “petit THINK TANKS” e pequenas exposições. Iniciaram-se também as “Leituras em tempos de crise” e foram publicados textos e estilhaços da programação. Agora estou a preparar uma publicação-ensaio sobre e através do pC.
O espaço diminuto convidava a encontros íntimos com grupos pequenos, do mesmo modo que as exposições (naturalmente públicas) pretendiam experimentar um aspecto criativo, uma relação com o espaço, sendo o público um sujeito distante. Quase todos os projectos estiveram assentes na imaterialidade e na relação dos intervenientes, sendo dirigidas a um grupo restrito de pessoas. O blog, os convites e a publicação foram um modo diferido de relação com o público, ao qual chegaram sempre aspectos parciais, um pouco misteriosos e mesmo incompletos dos projectos em curso. (Por exemplo, os convites mostravam sempre imagens do evento anterior, interligando os diversos intervenientes). O facto de ser um projecto de apenas uma pessoa (eu) trouxe uma grande liberdade na exploração, mas também uma dificuldade na produção, comunicação, agendamento, etc. A relação “convencional” com os visitantes, a audiência, não esteve na formulação das preocupações do pC.
Ao longo deste período, fui percebendo que a comunidade do pC é uma comunidade de interesses, de afinidades ou de aspirações que ultrapassa as Artes e uma localização geográfica precisa. A sua comunidade (ou público) não é necessariamente o visitante passante que se cruza com o espaço físico, mas uma audiência atenta a uma abordagem oblíqua às questões disciplinares. (Ainda que o espaço físico tenha sido fundamental para ensaiar uma entrada com a forma de projecto.)
A limitação espacial do pC trouxe a necessidade de voltar a produzir projectos noutros locais. Esse é o caso do projecto RESCALDO e RESSONÂNCIA! que inaugurou em Abril 09 na Reitoria da Universidade do Porto. Assino-o como um projecto meu e do pC, isto é, a plataforma do pC expandiu-se para o espaço público e estabeleceu ligações com a Universidade do Porto. Desenvolveu-se uma pesquisa sobre o espaço incendiado da Reitoria, é um ensaio sobre o espaço, um percurso instalativo que pode ser entendido como um “espaço sobre o espaço”. Propõe-se também uma programação paralela que está a decorrer, com concertos, workshops e outros encontros. Este é o primeiro projecto de uma nova modalidade de operação do pC. (www.rescaldoressonanciaproject.blogspot.com). Outro convite que surgiu foi a co-curadoria de um evento performativo, entre conferência, encontro e catalisador na Bienal de Bordéus, em Outubro de 2009. (www.evento2009.org)
Regressando ao assunto do vosso nº 0, colocam questões sobre relações da prática artística/cultural contemporânea portuguesa com uma exterioridade “global” e sobre os modos de “aculturação”, a que chamam uma “esteticização” das tendências. A vossa questão leva-me a pensar pela primeira vez o Local como tal e a apresentar uma resposta ressituando-me perante um assunto tangencial ao meu posicionamento. No meu entendimento, a relação entre Local/Global, apenas deve ser entendida como um sistema em conexão, que opera diversas formas de agenciamento com acessos e velocidades distintas, nas quais participa o que chamam “Local”. Existem diferentes concepções de “local”, e distintos modos de conectividade. Mas pensemos que o global não é homogéneo, que o local não está isolado, que as modalidades de relação estão em permanente reconfiguração. O agente/actor é simultaneamente local e rede, é localizado e agente, situação e potência. Neste entendimento, que é o meu, a dimensão local/global define-se por um sistema de diferentes intensidades, heterogeneidades e, fundamentalmente, de acções. A contingência da localização física não determina uma “ideia de identidade” local, talvez defina um “modo de fazer” local, mas sempre atravessado por linhas de relação com outros “locais”.
Relativamente ao panorama artístico/cultural português, é demasiado extenso e hetorogéneo para poder sintetizá-lo. Quando trabalhava no Instituto das Artes tinha uma leitura macro das dinâmicas do país e das estratégias de internacionalização. Mas o trabalho que estou a desenvolver agora prescinde da noção rígida de fronteira e, sobretudo, da noção de identidade portuguesa. Desde logo, para compreender o pC, distingamos a noção de comunidade da ideia de público/audiência e eliminemos do nosso modo de relação com o “exterior” qualquer semelhança com uma tentativa oficial de “internacionalização”. O pC é uma proposta curatorial que articula preocupações de pessoas e actores que convida. O seu âmbito está fora de qualquer circuito de legitimação de práticas nacionais, não é um centro cultural, um museu, ou uma publicação de grande circulação, pelo que participa de uma forma indirecta no discurso representacional. Apenas os seus actores (agentes, artistas, produtores, espaços, orçamentos) podem ser situáveis, e realmente até à data a sua maioria é portuguesa. O projecto encontrou ligações com pessoas, entidades e com instituições que se ligam e alimentam o projecto. A modalidade de relação não é normativa e quer permanecer permutável.
Da reconceptualização do projecto, pretendo um formato curatorial que expanda a minha investigação académica e se apoie na mobilidade implicada pelos projectos em que estou envolvida. O pC servirá como plataforma de investigação sobre preocupações/temáticas da arquitectura, da arte e da cultura contemporânea. É um projecto de investigação especulativa. A mudança de espaço está a ocorrer esta semana. Em breve serão bem-vindos.
Inês Moreira