terminal (oeiras, exhibition)

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TERMINAL pan_9

[plano21 _cmo _oeiras 05] spatial installation for contemporary art exhibition center

authors: Inês Moreira with Paulo Mendes and Cláudia Martinho

curator: Paulo Mendes with Sandra Vieira Jürgens and Inês Moreira

_from April 04 to September 2005 [+info]

+ info on: + space + essay _on industrial spaces + em fractura _exhibition + credits

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Terminal: do Hangar K7 ao novo espaço expositivo

Inês Moreira, 2006

[portuguese version only – english translation will come soon]

O Terminal está instalado no Hangar K7[1] uma imponente nave de betão modular desactivada do seu uso industrial, com cerca de 3500m2, em tudo semelhante aos demais espaços da Fundição de Oeiras. Com cobertura e estrutura interna em betão, é iluminado zenitalmente por lanternins de vidro, e apenas é acessível por um enorme portão de chapa ondulada, marcada pelo tempo, que está a eixo do acesso principal da Fundição.

Todo o complexo da Fundição, gigante estrutura concebida para a transformação do ferro, foi desactivado da sua função industrial, tendo sido posteriormente ocupado por micro-empresas dedicadas a funções terciárias (agora também elas em processo de desocupação). Nesta metamorfose funcional que abrange a Fundição, o Hangar K7 manteve, basicamente, a sua estrutura espacial, tendo albergado desde 1997 diferentes projectos culturais.

Tal como os temas das exposições que acolhe – “Em Fractura, Colisão de Territórios” e “Toxic, O discurso do Excesso” -, o projecto propõe uma reflexão sobre a sociedade pós-industrial. Orientam a intervenção novas ideias de espaço público: o estaleiro, a doca, as paisagens acidentadas, os terrain vague expectantes, os terminais, locais em trânsito, entre a chegada e a partida.

Para acolher o projecto expositivo, era necessário que o espaço do Terminal tivesse diferentes qualidades e criasse diversidade nos seus espaços, proporcionando diferentes escalas e relações visuais, criando um percurso que possibilitasse a fluidez de movimentos ao visitante na sua deambulação por entre as obras de arte.

Pretendia-se que a intervenção simultaneamente respeitasse a preexistência e fosse transformadora da leitura do contentor da fábrica, criando uma escala mais íntima
para as obras expostas e uma maior sensação de conforto espacial para o observador, de outro modo esmagados pela dimensão da fábrica.

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Hangar k7 em 1996

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Demolição e remoção, 1ª etapa.

O K7 estava ocupado. Concebido como uma nave de estrutura ampla (dividida em três sub-naves), quando ali chegámos, dominavam-no volumes de diferentes ocupações, todas inicialmente efémeras. Acumulavam-se projectos, volumes, técnicas e autores numa paisagem heteróclita e inconciliável. Grandes volumes em Ytong[2], transformados por intervenções de paredes e tectos em gesso cartonado[3], aos quais foram acrescidos pequenos volumes de aglomerado e contraplacado[4], tudo dominado pelo imponente volume negro na entrada[5]. Uma paisagem piranesiana, fruto da acumulação e de memórias do novo passado recente.

Desta devastadora paisagem, avaliados o estado das estruturas e sua possibilidade de adaptação ao Terminal, seleccionou-se um único volume, autónomo em razoável estado de conservação e de autoria totalmente identificável.

De tudo o mais fez-se tábua rasa, apagaram-se todas as intervenções recuperando o vazio do contentor e restando das estruturas tridimensionais apenas as marcações produzidas no pavimento de cimento para as levantar.

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Hangar k7 em Fevereiro 2005

Ainda nesta primeira fase técnica[6], identificaram-se e solucionaram-se questões para dotação do espaço, capacitando-o para o acolhimento de um projecto com as necessidades técnicas e dimensão do Terminal. Estudadas as redes e sistemas do hangar, identificaram-se os canais utilizáveis, selaram-se os canais desnecessários, reforçaram-se as infra-estruturas (sanitárias e eléctricas) e dotou-se o espaço de novas valências (telecomunicações e segurança).

Definição dos elementos, 2ª etapa.

Finalmente o extenso espaço, apenas revelado em toda a sua amplitude após a sua demolição, estava disponível. Trabalhar com o Hangar K7 foi pensar sobre um contentor industrial anónimo e suas infra-estruturas industriais remanescentes. A forte métrica modular que o define quase simetricamente é desorganizada pelas calhas e infraestruturas que o cruzam (electricidade, iluminação, condutas subterrâneas de uso desconhecido).

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Estaleiros de contentores marítimos do Porto de Leixões, Janeiro 2005

Os elementos usados no espaço do Terminal participam do ciclo de circulação de material modular standard, remetendo para a ideia de depósito de bens e de produtos “em trânsito”. O projecto apropria e organiza-se partindo de distintos elementos pré-fabricados que, de novo, chegam, se armazenam e partem, tal como os inúmeros produtos que a Fundição de Oeiras disseminou por todo o país.

Utilizam-se materiais pobres de revestimento, como telas de drenagem, ondulines, contraplacados lascados, cores impuras, todos materiais acessíveis e comuns na paisagem urbana (vedações, acrescentos e marquises) que remetem para a ideia de estaleiro e para a solução “provisoriamente definitiva” que enche as paisagens suburbanas. Estes materiais criam superfícies com textura, volumes com cor, mobilizados contra a neutralização do espaço existente e opondo-se à ideia de anónimo contentor expositivo.

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Transformação e transporte dos contentores marítimos no K7 em Março 2005

1. O contentor marítimo, objecto paradigmático desta intervenção, representa o módulo standardizado[7] para o transporte de mercadorias produzidas em série. O contentor, invólucro exterior que protege o precioso produto industrial, remete tanto para os seus submúltiplos (produto-caixa-palete-contentor), como para os seus múltiplos que circulam no livre espaço das rotas do comércio internacional. Tanto as redes terrestres de auto-estradas e caminhos de ferro estão incluídas nas dimensões do camião/vagão TIR como as frentes marítimas e os terminais de cidades portuárias inteiras estão incluídas na dimensão de um cargueiro marítimo.

Pelas suas características standard e universais, na sua total opacidade e estanquicidade, para além de transportar, o contentor marítimo acolhe e protege. A história portuguesa define-se também por estes elementos. No seu interior circulou a prosperidade das ex-colónias, o crescimento do import-export, circularam bens de refugiados, circulam objectos clandestinos e emigrantes ilegais. De ícone dos fluxos de consumo na sociedade industrializada, tornou-se ícone de sociedades Em Fractura.

O contentor é também objecto de intervenções que projectam alguma má consciência da sociedade ocidental. A Bienal de Veneza de Arquitectura de 2001 foi pródiga na proliferação da transformação de contentores. Dos abrigos de emergência para refugiados de guerra,  desalojados de acidentes naturais, apoio a equipes de combate a situações de catástrofe, aos hiperdesenhados lofts novaiorquinos, a dimensão do contentor marítimo ultrapassa a sua dimensão física, sendo simultaneamente a de pequenos pixéis que definem cartografias de fluxos da pós-industrialização, e a de grandes banners arquitectónicos que publicitam o melhor produto para lavar a consciência.

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Colocação dos contentores marítimos no K7 em Março 2005

2. Os andaimes modulares, estruturas comuns e cada vez mais presentes na conformação da paisagem urbana, envolvem edifícios em construção, em remodelação, para demolição, servindo a função de superfície exterior de acesso e distribuição de materiais, e protegendo os trabalhadores que neles circulam.

Na sua função, acrescem uma qualidade plástica fortíssima às fachadas a que se acoplam, concedendo-lhes qualidades de uma subtil pele efémera. São usados como ecrãs gigantes para superfícies publicitárias, tornando os edifícios neles envoltos em outdoors bidimensionais, onde a imagem domina a cidade. Um gigante mundo wallpaper que reveste os toscos estaleiros onde morrem trabalhadores da construção.

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Construção das paredes em estruturas metálicas em Março 2005

3. As vedações metálicas standard definem ténues limites entre público-privado, que apenas as suas sapatas conseguem atravessar. São os limites exteriores que confinam amplas áreas inacessíveis do nosso espaço público, usando uma imprevisível qualidade de transparência. Isolam mas revelam as operações que delimitam. São fronteiras urbanas que demarcam zonas de ocupação, delimitando estaleiros de construção (segundo projectos aprovados de segurança no trabalho). São usados nos estaleiros privados. Mas também nos estaleiros públicos. O metro, os túneis, as praças são espaços públicos roubados à cidade, reservados a “pessoal autorizado” mas deixados visíveis através das redes para usufruto público. Por vezes servem de suporte a operações de tratamento da imagem urbana, do tipo banner: “É bom viver em Lisboa”.

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Aguardando os andaimes e a casa de a.s* atelier de santos 2005

Projecto e Construção do espaço, 3ª etapa.

A proposta espacial para o Terminal resulta da articulação espacial e funcional de todos os elementos. Os contentores reconvertidos, recuperados de um mercado de segunda mão em que se negoceiam escritórios de estaleiro, stands de venda de fruta e ferro-velho, foram transformados para receber salas de projecção, exposição, recepção, DJ e serviço educativo. As impressões na sua chapa denunciam o seu longo e anónimo trânsito por caminhos que apenas a sua matrícula pôde denunciar, até ser polida e tratada, tornando-se numa caixa de exposição. Como elemento central, dominando todo o espaço do Hangar, estão colocados definindo uma estrutura tridimensional complexa que ocupa o tramo central. Deles parte a estratégia de ocupação: cortar a profundidade do espaço, criar leituras transversais e longitudinais, definir zonas variadas, diversificar as escalas e criar salas pequenas para ocupação individual.

Esta estrutura é atravessada por passadiços de andaimes metálicos, que definem promenades tridimensionais, desmultiplicando as possibilidades de circulação e leitura do espaço, tal como quando usados em estaleiro para acesso e circulação de trabalhadores e materiais, na contínua construção da anónima paisagem suburbana. Na sua maior dimensão, o passadiço conduz um percurso da entrada da fábrica à “praça central” onde estão localizados contentores para exposição individual, prosseguindo para o auditório e serviço educativo. Neste percurso, o espaço expositivo desmultiplica-se em diferentes níveis que desdobram as leituras do espaço e permitem leituras e relações diferentes entre as peças expostas.

As grandes caixas que, simétricas, definem o primeiro plano de ocupação do hangar, assumem o gesso cartonado de que são compostas, criando volumes herméticos em que expõe trabalhos artísticos: encerrando vídeos na sala negra, e revelando peças criadas para a sala em bruto. Ambas as salas devolvem alguma simetria ao espaço expositivo, onde uma organização de paredes que se definiu fluída e contínua permite uma fácil distribuição e ocupação extensiva e orgânica por todo o espaço.

Com as redes metálicas criaram-se barreiras físicas com permeabilidade visual que organizam o espaço, definindo sub-zonas dentro do espaço do Hangar. Como anteparo da entrada, limite da zona social-funcional do bar ou barreira do serviço educativo.

Como parte do projecto expositivo de “Em Fractura – Colisão de Territórios”[8], e complementarmente ao projecto de arquitectura do Terminal, a dupla a.s* – atelier de santos – foi convidada para intervir sobre o elemento preexistente de sua autoria, criado anteriormente para o evento Off.Site, transformando a densa volumetria e seu revestimento num novo elemento que domina a zona de entrada do Terminal.

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O Complexo da Fundição de Oeiras visto do comboio e no googlemaps de 2006

[1] Denominado Hangar k7 desde 1997, é a antiga nave de produção de armamento para a guerra colonial.

[2] Anatomias Contemporâneas, 1997

[3] More Works about Buildings and Food, 2000

[4] Experimenta Design, 2003

[5] Off.Site, 2004

[6] Relativamente a esta fase, é de referir o grande esforço e colaboração da Câmara Municipal de Oeiras, nomeadamente do Arquitecto Carrilho e do Gabinete de Projectos Especiais.

[7] Contentor ISO de 20 pés (dimensões internas: comprimento 5898 mm, largura 2350 mm, altura 2390 mm; dimensões externas: comprimento 6058 mm, largura 2438 mm, altura 2591 mm; peso: 2300 kg). Contentor ISO de 40 pés (dimensões internas: comprimento 12030 mm, largura 2350 mm, altura 2390 mm; dimensões externas comprimento 12190 mm, largura 2430 mm, altura 2590 mm; peso 4100 kg).

[8] A 1ª exposição que teve lugar no Terminal.